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Breve enquadramento


Em 4 de Outubro de 1956, no seguimento de um anúncio a que respondi no Diário de Notícias e após entrevista com o Dr. Augusto José Murteira, naquele época Director, tornei-me profissional de seguros na Companhia de Seguros Sagres.

 

Com 17 anos e, por ter o 4º. Ano liceal, entrei para a Carteira com a categoria de 4º Praticante e ordenado mensal de 450$00, pouco mais que dois euros actuais.

Eram assim as admissões naquele tempo.

Pelo CCT, de 4º Praticante passava-se a 3º no ano seguinte, depois 2º, 1º, seguia-se 2º Aspirante, 1º. Aspirante e, ao Sétimo ano, atingia-se a categoria de 3º. Escriturário, onde se incluíam muitos chefes de família.

Não foi essa a minha carreira: - Em 1959, com 19 anos, deveria ser promovido a 2º Praticante, mas por mérito fui promovido a 3º Escriturário, saltando sobre as categorias intermédias. Julgo ter sido o mais jovem Escriturário de sempre.

Com um ou dois dias de diferença, também foram admitidos o José Manuel Nascimento Gonçalves e o João de Sousa Faria Borda.


A Companhia e alguns responsáveis


A Sagres era uma prestigiada Companhia de Seguros, com sede na Rua do Ouro, 175 a 181 em Lisboa e na altura já tinha capitais da família Mello.

Antes tinha-se chamado de Luso Brasileira, pelo que durante muitos anos ainda lidei com apólices onde a denominação era esse.

Ocupava o rés-do-chão, segundo e quinto andares.

Entrávamos pelo nº. 181, onde um porteiro atento se sentava numa pesada secretária escura (de pau-santo). Um dia, durante breve ausência, dois indivíduos vestindo fato de macaco roubaram a secretária. Deu brado e o Dr. Leite de Faria (Administrador) dizia-nos que os gatunos mereciam a oferta da cadeira.

As outras portas eram para o balcão. Muitos turistas, entravam a pedir informações. Quando era uma turista bonita vários se levantavam para o atendimento.

A Administração tinha três membros - Senhores D. João de Mello, Armando José Ferreira e o Dr. Miguel Leite de Faria – e estava instalada no rés-do-chão, ao fundo de um corredor feito com uma divisória de madeira e vidros foscos.

Para completar a descrição do local, havia divisórias entre as secções, com postigos que se abriam para chamar algum colega ou passar um raspanete…

À direita da entrada era a casa-forte, onde se guardavam as apólices e se fazia os movimentos do correio, nomeadamente “registo” do expedido.

A parte central era praticamente ocupada pelos diversos Ramos: Fogo, Acidentes de Trabalho, Marítimo e Automóvel e outros.

À esquerda da entrada era a Área Comercial (Dr. João Augusto de Vasconcelos e Sá e Jorge de Figueiredo); o Serviço de Pessoal (Fernando Oliveira Ramos).

Havia a Secretaria, onde o Sr. Artur José Ferreira (irmão do Administrador), controlava custos, só nos dando novo lápis em troca do usado. Era apoiado por um elegante jovem, admitido também em 56, de seu nome António Carlos Ahrens Teixeira Esteves.

Ao lado da Administração estava o PBX, onde a D. Isaura – hábil a trocar as cavilhas nas ligações telefónicas – pontificava e protegia um canário e o Tico-Tico, o gato por nós tratado com toda a deferência não fosse ela queixar-se à Administração.

O Chefe dos Acidentes de Trabalho era o João Maria Magalhães Ferraz, também comandante de bombeiros e que tem uma rua com seu nome em Mem Martins, Sintra.

No Ramo Incêndio dois Chefes: o carismático Eugénio José Ferreira (outro irmão do Administrador Armando Ferreira) e o efectivo, António Borges Saldanha do Vale.

No Ramo Automóvel era o Sr. Peter. No Marítimo o Pebre. No Ramo Vida era o Mário Moreira. Do “Pessoal Menor” o Chefe era o Fernando Duarte.

No segundo andar, eram a Contabilidade e o Resseguro. Da Contabilidade o responsável era o Sr. Abel Terenas e no Resseguro o Dr. Augusto Murteira, que tinha por colaborador o Sr. Cardeira. Ainda trabalhei um tempo no Resseguro.

No quinto andar, uma pequena sala servia de Refeitório e a comida, levada em marmitas, era aquecida com lamparinas. Nesse andar havia mais uns serviços mas não me lembro quais, julgo que o Ramo Vida.

Também no quinto andar se faziam serões, para que a fiscalização não aparecesse.

Mulheres eram poucas. Além da referida D. Isaura, outras duas colegas eram irmãs – D. Cesaltina e D. Conceição Mettelo – e outra colega de que não recordo o nome. Todas se reformaram e só mais tarde foram admitidas colegas novas e jovens.


Arquivo de Apólices e registo de correio


Naquela época, as apólices eram arquivadas em pastas com 250 contratos. Quando havia alguma Acta Adicional, a mesma era colada à apólice respectiva. Imagine-se quando era preciso pedir 10 ou 20 apólices que não fossem da mesma pasta…

Até havia quem, para manter uma certa privacidade, pedisse umas dezenas de apólices, que eram estrategicamente colocadas à volta da secretária. No Verão, então, dava muito jeito.

Os Contínuos levavam as apólices requisitadas para as Secções e depois recolhiam-nas para o Arquivo. Era um trabalho esforçado. Recordo o Pereira e o Miguel, este fora empregado na casa do Sr. D. João de Mello antes de ir para a Sagres.


Como era o registo do correio?

 

Bem, o Registo e Arquivo eram interessantíssimos.

Quando se escrevia uma carta, era feita uma cópia com químico copiativo, roxo que nos sujava as mãos se lhe tocássemos. Era com esse químico que esfregávamos os telefones por altura do carnaval…imagine-se as consequências…

No Arquivo, um livro grande com folhas de papel vegetal, talvez com uns 80 cms de altura e 30 de largura, constituía o Registo de Cartas expedidas.

Um pincel, levemente molhado, passava sobre a Folha do Livro e, de seguida, eram colocadas as cópias das cartas (habitualmente três por folha) com a parte do químico virada para a folha, fechando-se o livro de cada vez.

O livro era então colocado numa prensa, apertado, e de seguida retiradas as cópias das cartas que tinham químico. No Livro tinha ficado registada a correspondência.


 

Numa prensa deste tipo o livro de registo do correio era apertado


Emissão de apólices


Quando entrava uma Proposta, era colocado um carimbo com as letras LN e espaço por baixo para assinatura. No corredor, existia um Arquivo chamado Lista Negra, regularmente actualizado pelo Grémio dos Seguradores. Nele constavam pessoas com historial de falta de pagamentos, sinistros fraudulentos, etc.

Só depois se emitia a apólice, à máquina com cópia que ficava arquivada.

Todas as apólices eram assinadas pela Administração.

Como medidas de publicidade, havia chapas para colocar nos imóveis e outras para os automóveis. As da Sagres eram bem bonitas.

No Ramo Agrícola, aos seguros de searas ofereciam-se uns panos brancos com a palavra SEGURO a vermelho, medida que evitava lhes puxassem fogo.

Recibos de prémio e registos


Os Recibos de Prémio eram feitos à máquina de escrever. Quase sempre numa Royal, com teclas de metal que, ao fim de semanas a bater, abriam os dedos. O chefe, no fim do dia, fazia a contagem dos recibos emitidos.

Depois eram conferidos e, pela força de bater as teclas, nos 0 e nos Ós às vezes ficavam buracos. Tinham de ser refeitos.

Outro pormenor era o rolo da máquina ser pequeno e os recibos maiores. Então os recibos eram feitos em duas vezes, dobrados pelos talões.

O Registo dos Recibos era feito à mão em livros grandes. Depois tínhamos de somar as colunas do registo e verificar se estava tudo certo.

Eram também assinados pela Administração.

Os Registos de Sinistros (Abertos e Pagos) também eram feitos à mão.

Os Cálculos de Prémios e Sinistros eram feitos ou à mão ou com recurso às máquinas de calcular manuais da Burroughs:


 

Assim se faziam os cálculos


A máquina com o rolo mais largo, que não estava na secção, apenas era utilizada para fazer os borderaux habitualmente enviados para Resseguradores.

 

Evolução da empresa e aumento de trabalhadores


A Sagres tinha uma excelente rede agentes, nomeadamente no Porto onde a firma A.Cravo&Irmãos, ditava leis. Abel Gomes de Oliveira respondia por Coimbra. Lembro Celorico da Beira e Armando Pereira Pichel. Por aí fora…

O crescimento da Sagres, implicou com a admissão de muitos novos trabalhadores, vindos de prestigiadas Companhias, uma delas a Ultramarina. Assim chegaram à Sagres (Hernâni Vidal, Carlos Manuel e outros). De La Equitativa (José Manuel Martinho Lima e Deolindo Matos Duarte) entre outros.

Em 1958, quando da erupção do Vulcão dos Capelinhos, nos Açores, a Sagres foi a única companhia a aceitar o seguro de Acidentes Pessoais para os repórteres do Diário de Notícias que se deslocaram às proximidades. Na época isso foi muito aproveitado para a publicidade.


O primeiro refeitório com alimentação fornecida


Mais tarde, por sermos da estrutura CUF, passámos a beneficiar do Refeitório da UNIFA (União Fabril Farmacêutica) na Rua dos Douradores. Foi um salto qualitativo.

Era barato, comia-se bem e à descrição, facto relevante para nós que éramos jovens. Algumas das senhoras que serviam as mesas já nos conheciam por comermos bem, não sendo preciso pedir mais…principalmente quando havia pastéis de bacalhau.


Recordações da época


Para nós, ainda crianças, a passagem pela rua do Ouro marcou a vida. Quem dessa época não recorda os gritos do Ferraz que atravessavam a sala, os ditos do Menezes, a quem colocávamos esporas nos sapatos pelo carnaval, e na Avenida António Augusto de Aguiar, 106, os putos Carlos Marques (hoje sindicalista) ou Joãozinho (hoje treinador de karaté) em disputa permanente.

Ninguém podia trabalhar sem ir de fato e gravata.

Recordo o dia em que colega JMNG disse um gracejo a uma jovem que passava e, poucos minutos depois, o Administrador Armando Ferreira avisava-o: “Rapaz, se te vejo fazer outra vez isso, vais para o olho da rua!”.

E o Antunes e o Garcia? Sempre em concorrência sobre o desenvolvimento dos bíceps um dia resolveram fazer uma prova de resistência com o extintor de incêndios que estava na casa de banho. Disparou, encheu tudo de espuma e foram suspensos.

A Festa de Natal era um momento alto no nosso convívio, recordando com saudades as que se fizeram na Casa das Beiras.


 

Rapaziada ai por 1958 – vê-se o Carlos Fonseca, Jaime Silva, Hernâni Santos, Deolindo e Carvalhal, entre outros .


O ordenado era pago com dinheiro dentro de envelopes…

 

Momentos históricos marcantes


No dia 11 de Novembro de 1961, à hora do almoço, estávamos à porta da Companhia quando um avião da TAP passou e deitou uns panfletos que caíram em grande número junto à Sagres. Foi a grande acção de Palma Inácio contra o regime de então.

Por volta de 1963 a Sagres deixou as instalações na Rua do Ouro para ir para a Avenida António Augusto de Aguiar, 106.

No dia 1 de Julho de 1967 a Sagres foi integrada na Império, a companhia que tinha sido criado com capitais exclusivos do Grupo Cuf

Dessa forma se caminhou para o desaparecimento da Sagres, nome que ainda se manteve com a Império-Sagres-Universal.

Muitas outras histórias poderiam ser contadas, recordações pessoais, amizades, namoros, casamentos, doenças e respeito da Administração pelos trabalhadores. Essas devem decorrer em encontros, mas infelizmente muitos desaparecem.Breve enquadramento

Em 4 de Outubro de 1956, no seguimento de um anúncio a que respondi no Diário de Notícias e após entrevista com o Dr. Augusto José Murteira, naquele época Director, tornei-me profissional de seguros na Companhia de Seguros Sagres.

 

Com 17 anos e, por ter o 4º. Ano liceal, entrei para a Carteira com a categoria de 4º Praticante e ordenado mensal de 450$00, pouco mais que dois euros actuais.

Eram assim as admissões naquele tempo.

Pelo CCT, de 4º Praticante passava-se a 3º no ano seguinte, depois 2º, 1º, seguia-se 2º Aspirante, 1º. Aspirante e, ao Sétimo ano, atingia-se a categoria de 3º. Escriturário, onde se incluíam muitos chefes de família.

Não foi essa a minha carreira: - Em 1959, com 19 anos, deveria ser promovido a 2º Praticante, mas por mérito fui promovido a 3º Escriturário, saltando sobre as categorias intermédias. Julgo ter sido o mais jovem Escriturário de sempre.

Com um ou dois dias de diferença, também foram admitidos o José Manuel Nascimento Gonçalves e o João de Sousa Faria Borda.


A Companhia e alguns responsáveis


A Sagres era uma prestigiada Companhia de Seguros, com sede na Rua do Ouro, 175 a 181 em Lisboa e na altura já tinha capitais da família Mello.

Antes tinha-se chamado de Luso Brasileira, pelo que durante muitos anos ainda lidei com apólices onde a denominação era esse.

Ocupava o rés-do-chão, segundo e quinto andares.

Entrávamos pelo nº. 181, onde um porteiro atento se sentava numa pesada secretária escura (de pau-santo). Um dia, durante breve ausência, dois indivíduos vestindo fato de macaco roubaram a secretária. Deu brado e o Dr. Leite de Faria (Administrador) dizia-nos que os gatunos mereciam a oferta da cadeira.

As outras portas eram para o balcão. Muitos turistas, entravam a pedir informações. Quando era uma turista bonita vários se levantavam para o atendimento.

A Administração tinha três membros - Senhores D. João de Mello, Armando José Ferreira e o Dr. Miguel Leite de Faria – e estava instalada no rés-do-chão, ao fundo de um corredor feito com uma divisória de madeira e vidros foscos.

Para completar a descrição do local, havia divisórias entre as secções, com postigos que se abriam para chamar algum colega ou passar um raspanete…

À direita da entrada era a casa-forte, onde se guardavam as apólices e se fazia os movimentos do correio, nomeadamente “registo” do expedido.

A parte central era praticamente ocupada pelos diversos Ramos: Fogo, Acidentes de Trabalho, Marítimo e Automóvel e outros.

À esquerda da entrada era a Área Comercial (Dr. João Augusto de Vasconcelos e Sá e Jorge de Figueiredo); o Serviço de Pessoal (Fernando Oliveira Ramos).

Havia a Secretaria, onde o Sr. Artur José Ferreira (irmão do Administrador), controlava custos, só nos dando novo lápis em troca do usado. Era apoiado por um elegante jovem, admitido também em 56, de seu nome António Carlos Ahrens Teixeira Esteves.

Ao lado da Administração estava o PBX, onde a D. Isaura – hábil a trocar as cavilhas nas ligações telefónicas – pontificava e protegia um canário e o Tico-Tico, o gato por nós tratado com toda a deferência não fosse ela queixar-se à Administração.

O Chefe dos Acidentes de Trabalho era o João Maria Magalhães Ferraz, também comandante de bombeiros e que tem uma rua com seu nome em Mem Martins, Sintra.

No Ramo Incêndio dois Chefes: o carismático Eugénio José Ferreira (outro irmão do Administrador Armando Ferreira) e o efectivo, António Borges Saldanha do Vale.

No Ramo Automóvel era o Sr. Peter. No Marítimo o Pebre. No Ramo Vida era o Mário Moreira. Do “Pessoal Menor” o Chefe era o Fernando Duarte.

No segundo andar, eram a Contabilidade e o Resseguro. Da Contabilidade o responsável era o Sr. Abel Terenas e no Resseguro o Dr. Augusto Murteira, que tinha por colaborador o Sr. Cardeira. Ainda trabalhei um tempo no Resseguro.

No quinto andar, uma pequena sala servia de Refeitório e a comida, levada em marmitas, era aquecida com lamparinas. Nesse andar havia mais uns serviços mas não me lembro quais, julgo que o Ramo Vida.

Também no quinto andar se faziam serões, para que a fiscalização não aparecesse.

Mulheres eram poucas. Além da referida D. Isaura, outras duas colegas eram irmãs – D. Cesaltina e D. Conceição Mettelo – e outra colega de que não recordo o nome. Todas se reformaram e só mais tarde foram admitidas colegas novas e jovens.


Arquivo de Apólices e registo de correio


Naquela época, as apólices eram arquivadas em pastas com 250 contratos. Quando havia alguma Acta Adicional, a mesma era colada à apólice respectiva. Imagine-se quando era preciso pedir 10 ou 20 apólices que não fossem da mesma pasta…

Até havia quem, para manter uma certa privacidade, pedisse umas dezenas de apólices, que eram estrategicamente colocadas à volta da secretária. No Verão, então, dava muito jeito.

Os Contínuos levavam as apólices requisitadas para as Secções e depois recolhiam-nas para o Arquivo. Era um trabalho esforçado. Recordo o Pereira e o Miguel, este fora empregado na casa do Sr. D. João de Mello antes de ir para a Sagres.


Como era o registo do correio? Bem, o Registo e Arquivo eram interessantíssimos.


Quando se escrevia uma carta, era feita uma cópia com químico copiativo, roxo que nos sujava as mãos se lhe tocássemos. Era com esse químico que esfregávamos os telefones por altura do carnaval…imagine-se as consequências…

No Arquivo, um livro grande com folhas de papel vegetal, talvez com uns 80 cms de altura e 30 de largura, constituía o Registo de Cartas expedidas.

Um pincel, levemente molhado, passava sobre a Folha do Livro e, de seguida, eram colocadas as cópias das cartas (habitualmente três por folha) com a parte do químico virada para a folha, fechando-se o livro de cada vez.

O livro era então colocado numa prensa, apertado, e de seguida retiradas as cópias das cartas que tinham químico. No Livro tinha ficado registada a correspondência.


 

Numa prensa deste tipo o livro de registo do correio era apertado


Emissão de apólices


Quando entrava uma Proposta, era colocado um carimbo com as letras LN e espaço por baixo para assinatura. No corredor, existia um Arquivo chamado Lista Negra, regularmente actualizado pelo Grémio dos Seguradores. Nele constavam pessoas com historial de falta de pagamentos, sinistros fraudulentos, etc.

Só depois se emitia a apólice, à máquina com cópia que ficava arquivada.

Todas as apólices eram assinadas pela Administração.

Como medidas de publicidade, havia chapas para colocar nos imóveis e outras para os automóveis. As da Sagres eram bem bonitas.

No Ramo Agrícola, aos seguros de searas ofereciam-se uns panos brancos com a palavra SEGURO a vermelho, medida que evitava lhes puxassem fogo.

Recibos de prémio e registos


Os Recibos de Prémio eram feitos à máquina de escrever. Quase sempre numa Royal, com teclas de metal que, ao fim de semanas a bater, abriam os dedos. O chefe, no fim do dia, fazia a contagem dos recibos emitidos.

Depois eram conferidos e, pela força de bater as teclas, nos 0 e nos Ós às vezes ficavam buracos. Tinham de ser refeitos.

Outro pormenor era o rolo da máquina ser pequeno e os recibos maiores. Então os recibos eram feitos em duas vezes, dobrados pelos talões.

O Registo dos Recibos era feito à mão em livros grandes. Depois tínhamos de somar as colunas do registo e verificar se estava tudo certo.

Eram também assinados pela Administração.

Os Registos de Sinistros (Abertos e Pagos) também eram feitos à mão.

Os Cálculos de Prémios e Sinistros eram feitos ou à mão ou com recurso às máquinas de calcular manuais da Burroughs:


 

Assim se faziam os cálculos


A máquina com o rolo mais largo, que não estava na secção, apenas era utilizada para fazer os borderaux habitualmente enviados para Resseguradores.


Evolução da empresa e aumento de trabalhadores


A Sagres tinha uma excelente rede agentes, nomeadamente no Porto onde a firma A.Cravo&Irmãos, ditava leis. Abel Gomes de Oliveira respondia por Coimbra. Lembro Celorico da Beira e Armando Pereira Pichel. Por aí fora…

O crescimento da Sagres, implicou com a admissão de muitos novos trabalhadores, vindos de prestigiadas Companhias, uma delas a Ultramarina. Assim chegaram à Sagres (Hernâni Vidal, Carlos Manuel e outros). De La Equitativa (José Manuel Martinho Lima e Deolindo Matos Duarte) entre outros.

Em 1958, quando da erupção do Vulcão dos Capelinhos, nos Açores, a Sagres foi a única companhia a aceitar o seguro de Acidentes Pessoais para os repórteres do Diário de Notícias que se deslocaram às proximidades. Na época isso foi muito aproveitado para a publicidade.


O primeiro refeitório com alimentação fornecida


Mais tarde, por sermos da estrutura CUF, passámos a beneficiar do Refeitório da UNIFA (União Fabril Farmacêutica) na Rua dos Douradores. Foi um salto qualitativo.

Era barato, comia-se bem e à descrição, facto relevante para nós que éramos jovens. Algumas das senhoras que serviam as mesas já nos conheciam por comermos bem, não sendo preciso pedir mais…principalmente quando havia pastéis de bacalhau.


Recordações da época


Para nós, ainda crianças, a passagem pela rua do Ouro marcou a vida. Quem dessa época não recorda os gritos do Ferraz que atravessavam a sala, os ditos do Menezes, a quem colocávamos esporas nos sapatos pelo carnaval, e na Avenida António Augusto de Aguiar, 106, os putos Carlos Marques (hoje sindicalista) ou Joãozinho (hoje treinador de karaté) em disputa permanente.

Ninguém podia trabalhar sem ir de fato e gravata.

Recordo o dia em que colega JMNG disse um gracejo a uma jovem que passava e, poucos minutos depois, o Administrador Armando Ferreira avisava-o: “Rapaz, se te vejo fazer outra vez isso, vais para o olho da rua!”.

E o Antunes e o Garcia? Sempre em concorrência sobre o desenvolvimento dos bíceps um dia resolveram fazer uma prova de resistência com o extintor de incêndios que estava na casa de banho. Disparou, encheu tudo de espuma e foram suspensos.

A Festa de Natal era um momento alto no nosso convívio, recordando com saudades as que se fizeram na Casa das Beiras.


 

Rapaziada ai por 1958 – vê-se o Carlos Fonseca, Jaime Silva, Hernâni Santos, Deolindo e Carvalhal, entre outros .


O ordenado era pago com dinheiro dentro de envelopes…

Momentos históricos marcantes


No dia 11 de Novembro de 1961, à hora do almoço, estávamos à porta da Companhia quando um avião da TAP passou e deitou uns panfletos que caíram em grande número junto à Sagres. Foi a grande acção de Palma Inácio contra o regime de então.

Por volta de 1963 a Sagres deixou as instalações na Rua do Ouro para ir para a Avenida António Augusto de Aguiar, 106.

No dia 1 de Julho de 1967 a Sagres foi integrada na Império, a companhia que tinha sido criado com capitais exclusivos do Grupo Cuf

Dessa forma se caminhou para o desaparecimento da Sagres, nome que ainda se manteve com a Império-Sagres-Universal.

Muitas outras histórias poderiam ser contadas, recordações pessoais, amizades, namoros, casamentos, doenças e respeito da Administração pelos trabalhadores. Essas devem decorrer em encontros, mas infelizmente muitos desaparecem.  

 

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